Desaparecimento<br> por obsolescência? Nã...
A leitura, já tempos faz, de um texto de Eduardo Prado Coelho (EPC), daqueles que ele publica diariamente no «Público», provocou-me a vontade de escrever sobre mesmo assunto. Uma vontade que me foi roendo e roendo. Guardei a referência ao texto até a perder. Mas outras coisas, outros temas iam-se sempre metendo por diante. E, quase sempre, o que ocorria não era tanto por uma questão de serem mais importantes os temas. Mas talvez uma questão de oportunidade, de agenda, como se diz agora? Mas desta vez é mesmo. Eis então a questão: a inevitável obsolescência dos «objectos», a propósito do telefone móvel versus telefone fixo…
O termo «inevitável» aqui referido não o é por o articulista considerar, neste caso, a obsolescência como qualquer coisa certa, e muito menos como qualquer coisa absolutamente certa. Pelo menos, a ser «inevitável», a obsolescência, não o é, com toda a certeza, de uma forma simplista - isto é, vem o novo e vai embora, arrasado, sem mais, o velho. E foi por me parecer estar implícito tal inevitável no texto de EPC - um texto curto e de circunstância, bem sei -, sob um tratamento do assunto não levando em conta as diversas faces do poliedro, faces necessariamente solidárias porque pertencendo ao mesmo sólido, foi por isso que resolvi sair a terreiro.
O erótico pós-moderno telemóvel - sê-lo-á ele mesmo assim, com essa qualidade, ao contrário de um moderno telefone fixo «sem qualidades», assexuado? - terá afastado o seu antepassado, sem apelo nem agravo, tal como tem acontecido com tantos outros objectos relegados para a inutilidade ou então para uma usufruição estética nostálgica, uma usufruição com frequência assimilável ao culto existente de uma cerâmica artesanal, dos donas elviras e, em geral, de tudo quanto possa cheirar a mais antigo e menos (!?) tecnológico. E nem os custos mais elevados poderão ter algum efeito contrário, favorável à utilização do telefone fixo?
Mas, nem mesmo falo (ai, meu Deus, sempre a tal inultrapassável obsessão erótica) do êxito que o serviço fixo teve, e tem, na área, não diria já do oral, mas antes do audiotexto (sim, parece ser mais determinante o ouvir - audire, em latim - do que o oral daquele, ou daquela, que fala). Falo tão simplesmente dos namorados ou dos amigos, porque tenho feito conhecimento com exemplos, que o utilizam durante horas esquecidas, nas suas - ou seja nas das suas famílias - residências. Exactamente porque é mais barato. Por isso, após trocarem os toques, as mensagens SMS ou telefónicas, para avisarem, chamam pelo telefone fixo e a ele ficam alapados.
Pois é. Alapados à sua comunicação. Até às tantas. Tratando-se de um acesso telefónico fixo, a preferência poderá irá para o telefone sem cordão, se existir, o qual pode ser utilizado em qualquer ponto da casa, nomeadamente pelo jovem no seu quarto. Mas, de qualquer forma, é sempre o acesso fixo, quer se trate de um terminal sem cordão, quer se trate de um telefone tradicional, transportável porque é possível desligá-lo de uma ficha existente na sala comum ou no hall da entrada para ligá-lo numa ficha existente no quarto próprio, ou quer se atenda o telefone no normal local comum, onde podem estar ou não os outros. Fala-se discretamente!
A diferença está nos requisitos da concreta comunicação. Nestes casos, uma duração quase indeterminada. Sobretudo nos namoros. É assim mesmo. E, se a duração é indeterminada não é o telemóvel que é normalmente utilizado. Porque este é muito caro para tal tipo de aplicações. Os seus custos são incomportáveis… a não ser que tanto te faça o que tens pagar. Mas estes casos são mesmo muito raros. Para a maioria das pessoas, o telemóvel é sempre o ideal se não estiveres em casa (ou no emprego!). Em casa também o é para os toques, para as comunicações telefónicas curtas ou para a comunicação assíncrona através de mensagens.
É assim: talvez eu seja demasiado obtuso para encontrar, para este caso, outras explicações mais «cultas» que as dos custos. Se a tal me chegasse a arte - ou o espaço? -, talvez encontrasse ainda explicações ainda melhor fundamentadas para basear a minha refutação do tal afirmado (por EPC) desaparecimento do telefone tradicional por obsolescência. Pelo menos entre as camadas mais jovens, quando toca ao amor e ao acasalamento, o telefonezinho ainda parece fazer algum jeito. Tal acontece também com muitos dos mais idosos (mas estes, para outros, já não contariam para o baralho). Pois, a obsolescência do telefone parece não o ser ainda!
Talvez tenha treslido EPC (admitir enganos é sempre um bom princípio), mas bastou apenas mais uma face do poliedro, aliás, por ele negada no texto - a dos custos -, para sentir força para refutá-lo.